Nesse post aqui replico um texto que coloquei no meu Linkedin em 23 de abril de 2025. Ele conta um pouco de minha relação com o jornalismo, a medicina e essa coisa toda.
“Nunca publiquei nada aqui, ao menos nos últimos anos. Então aí vai minha carta de apresentação.
Na escola fui um aluno (bem) acima da média. Numa época em que não havia os streamings, programava o videocassete para gravar o programa do Jô e assistia no dia seguinte. Meus livrinhos da escola já estavam lidos muito antes da professora mandar. Cresci vendo aquele programa de documentários das noites de sexta e a famosa revista eletrônica do domingo. Também adorava ver programas de ciências na TV. O resultado é que por volta dos 12 anos decidi que seria jornalista.
Desejava trabalhar na maior empresa de comunicação do país, estar presente onde as coisas aconteciam, testemunhar fatos históricos… O plano já estava traçado: ir pra faculdade, estudar e chegar lá. Veio o momento em que a decisão ia ser tomada de verdade. E aí começaram os desvios. Há algo do que se fala muito atualmente, mas que não era discutido no meu tempo. Um adolescente de 16 ou 17 anos escolher o que vai fazer pelo resto da vida é uma daquelas decisões críticas, que definem tudo dali em diante. Mas naquele tempo, concluo hoje olhando para o passado, essa decisão era vista como a simples escolha de um curso sem pesar muito nas suas implicações. Ou talvez se falasse e eu que não tivesse a vivência para entender esses efeitos. Hoje, qualquer estudante com as redes sociais tem acesso direto ao profissional que desejar, conhecer seu cotidiano, a rotina das faculdades… Há 25 anos o estudante mais bem equipado não tinha toda essa facilidade. Não raro se pisava numa universidade pela primeira vez no dia de fazer a prova do vestibular.
Há que se falar ainda que na hora de decidir que curso seguir o jovem ouve diversas opiniões que, até com a melhor das intenções, o levam a observar aspectos mais pragmáticos, como empregabilidade, sem chamar atenção para o principal: o que aquele indivíduo deseja para a própria vida? Além disso, apoios que seriam fundamentais nesse momento podem não rolar, e não falo só de apoio material não. É apoio moral mesmo do tipo “se o caminho que você quer é esse então estamos juntos até você chegar onde quer”. E assim vai o estudante com pouca experiência da vida, decidir seu futuro carregado com as expectativas que os outros colocaram sobre si.
Imagine um foguete que sai da Terra em direção à Lua, partindo com toda a força de seus propulsores pelos mais de 384 mil Km que nos separam de nosso satélite. Tá ok, eu sei que no mundo real não é só traçar uma reta da Terra à Lua e ligar o foguete, apenas pegue a ideia. Se na partida essa nave desviar somente um grau, ao completar a distância os astronautas vão perceber que se afastaram mais de 6000 Km do objetivo. Isso é mais que a distância entre Recife e Orlando, nos EUA. Agora imagine alguém que escolhe uma carreira considerando questões mais práticas em vez de pensar no que deseja para si. Tendo em mente que essa decisão repercute no tempo, imagine o tamanho do desvio da rota dali a 20 anos.
E foi assim que não fui estudar jornalismo, também não fui logo para a medicina. Fui para a ciência da computação. Com a cabeça de hoje até acho uma escolha bem interessante, da qual teria gostado nos dias atuais, mas não naquela época. Pulando muitos anos na história, finalmente me tornei bacharel em jornalismo, aos 27 anos. Considerando que trabalhava e depois passei a fazer estágio de dia, estudava de noite e dava plantão aos sábados e domingos, acredito ter feito muito bem a faculdade, dentro do tempo regulamentar, de quatro anos. Já estava num outro momento da vida, não mais dependendo dos pais, mas sendo responsável por minha própria manutenção. Não consegui chegar à meta (não aquela que é dona de algumas redes socias, falo da maior empresa de comunicação do Brasil). Também nunca a abandonei, embora hoje haja empresas concorrentes, cujos times também gostaria de integrar. Talvez, no momento em que tive a oportunidade não consegui expressar o quanto eu queria alcançar aquelas posições, talvez por inexperiência tenha dito algo na entrevista que não foi bem recebido, ou talvez simplesmente os outros candidatos estavam mais bem preparados que eu.
Onde teria chegado? Não dá pra saber, fica tudo no campo do ‘e se?’. Olhar para meus antigos colegas dá alguma ideia. Tem gente atuando no cenário local. Tem gente servindo à sociedade em órgãos públicos. Tem quem hoje seja âncora num dos principais canais de notícias do país. Há quem chegou onde eu sempre quis chegar, mas já não esteja mais por lá, tendo até mudado a atividade profissional. Alguns foram pra carreira jurídica. Outros viraram empresários. Tem até quem tenha seguido o caminho da medicina.
Tinha uma predileção por assuntos ligados à política e à economia. Ainda hoje carnavais e eleições mexem comigo, pois são as maiores coberturas do ano nos veículos de comunicação. É aquela coisa meio ‘a festa tá acontecendo e eu não fui convidado’. Anos depois descobri o teatro e aí adicionei também a editoria de cultura às minhas favoritas.
O fato é que, sem chegar à minha meta no jornalismo segui na medicina. Mas nunca deixei o gosto pelo jornalismo. Dentro do possível tentei conciliar a vida de médico com algumas formações de utilidade a um jornalista: uma pós em diplomacia e relações internacionais, que precisou ser interrompida em meio a uma residência de oftalmologia; duas semanas em São Paulo fazendo um curso de locução na Cásper Líbero ( e indo pros teatros e conhecendo museus); treinamento em jornalismo diário; pós em Ciência Política, essa concluída; aulas de dublagem e de teatro (até me apresentei num espetáculo).
Some-se a isso o gosto pela leitura. Sou curioso pelos mais diversos assuntos. Em minhas estantes há livros do que se pensar. Além dos, romances clássicos e livros médicos, tem coisa sobre ilusionismo, religião, idiomas, programação de computadores, instrumentos musicais(tenho alguns, mas não prometo tocar nada), pintura, teatro e por aí vai. Quem dera o dia tivesse umas horas a mais pra dar conta de ler tudo logo. Um dia fiquei até feliz em saber que há uma palavra pra quem se interessa por tantos assuntos: polímata. Não que seu esteja no nível de Da Vinci, mas cada um ao seu jeito. Isso tudo porque sempre achei que leitura e curiosidade são características de todo bom jornalista. Também gosto de ouvir podcasts. Posso de dizer que ouvi todos os quase 1500 episódios d’O Assunto, só pra citar um dos que acompanho.
Alguém pode dizer que o meu diploma tem 14 anos e está ultrapassado. É verdade que a comunicação e o mundo mudaram muito nesse período. Tenho plena consciência dessas mudanças e dentro das possibilidades vou me inteirando sobre elas. A mídia tradicional, aquela que tem jornalistas, editores e responsáveis pelo que se publica vem cada vez mais sendo questionada em favor dos conteúdos espalhados por redes sociais, nem sempre com informações verídicas. A verba publicitária também vem sendo pulverizada entre número maior de players e há jornais impressos que deixaram de circular em meio físico. O profissional hoje precisa dominar e produzir conteúdo para várias mídias diferentes no mesmo veículo. Com a inteligência artificial (IA) a distinção entre realidade e invenção se torna mais sutil, porém, a mesma IA pode ser uma aliada no acesso à informação e na análise de dados produzidos por praticamente tudo hoje em dia. Apesar dos desafios, a essência do jornalismo, que é estar presente e reportar os fatos, permanece na atualidade. Além disso, convenhamos, se hoje o diploma de jornalismo sequer é uma exigência cabal para o exercício da profissão, um diploma de 14 anos não chega a ser problema. Ainda mais junto com experiência acumulada na medicina sobre os problemas de saúde do país, termos técnicos, algumas centenas de partos realizados e tantos outros aspectos.
Cada um tem sua história. E essa é a minha. É muito pessoal, mas achei que devia escrever isso aqui como uma forma de apresentação. Calculo ter chegado à metade da vida. Ainda há outra metade para viver. Se você acha que alguém com esse relato pode acrescentar à sua redação manda um olá, quem sabe a gente não toma um suco e bate um papo. No Instagram @alanvinicius
OBS: O texto foi escrito até aqui sem uso de IA. Foi tudo um relato genuíno saído de minhas memórias, no entanto, entreguei o texto ao Copilot, a fim de saber suas impressões. Só posso dizer uma coisa: quem dera o pessoal dos maiores veículos de mídia do país ache da minha história o mesmo que o Copilot ‘achou’.”
Pouco depois desse post no Linkedin descobri que as IAs têm um ‘modo bajulação’ . Mas tirando a bajulação da IA, ainda me considero alguém com características peculiares pro jornalismo.
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